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Minas vai representar o Brasil na Conferência Mundial de Juventude.
Na terça-feira que vem, dia 6 de maio, começa a Conferência Mundial de Juventude que, desta vez, vai rolar em Colombo, no Sri Lanka. Ok, até aí tudo bem. O que talvez você não saiba é que um dos delegados oficiais escolhidos para representar o Brasil no evento foi o mineiro Diego Callisto. Ele tem 26 anos, é de Juiz de Fora, cidade referência na Zona da Mata de Minas Gerais.
Diego é formado em Relações Internacionais pela Universidade Anhembi Morumbi, faz parte da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, é assessor do Fórum Consultivo de Juventude (YAF) do UNAIDS e coordenador regional da Rede Latinoamericana de Jovens Positivos (REDLACJ+).
Callisto concorreu com vários jovens de 19 estados brasileiros às duas vagas para delegado oficial e se deu bem. Os critérios para a seleção incluíram o equilíbrio de gênero da delegação, a representatividade em movimentos de juventude no Brasil e a experiência dos candidatos com pautas de juventude, Metas do Milênio e processos multilaterais e Pós-2015.
Nós batemos um papo com Diego para conhecer um pouco melhor a sua história, descobrir o que ele faz e o que pretende fazer da vida, além de saber mais sobre as suas expectativas para a Conferência. Ele embarca para o Sri Lanka na próxima semana.
Bora lá?
Observatório: Por que você decidiu sair de Juiz de Fora para viver em São Paulo?
Diego: Eu saí de Juiz de Fora com destino a São Paulo para estudar. Iniciei meus estudos em Publicidade e Propaganda, mas não cheguei a concluir. Larguei o curso e iniciei o bacharelado em Relações Internacionais. Fui bolsista Prouni durante toda a graduação e estudei em uma universidade que particularmente considero uma das melhores nessa área.
Observatório: Em que ano você se mudou?
Diego: Me mudei para São Paulo em 2007. Fiquei lá até 2013 e no final desse mesmo, já formado, eu optei por voltar a viver em Juiz de Fora, que é minha cidade natal e onde minha família mora.
Observatório: Você já desenvolvia trabalhos com foco em juventude quando morava em Minas Gerais? Se sim, quais eram eles?
Diego: Não, mas desenvolvi alguns trabalhos em Minas mesmo vivendo em São Paulo, através de parcerias com ong’s do estado, redes, fóruns e movimentos da sociedade civil. Quando saí de Juiz de Fora eu era muito jovem, tinha recém completado 18 anos e uma noção mais individual do mundo e das problemáticas que o envolvem. Comecei a me preocupar com o coletivo após meu diagnóstico para o HIV.
Foi um momento de mudanças na minha vida. Pude perceber quantos adolescentes e jovens eu poderia ajudar usando o meu entusiasmo, vontade e determinação de buscar desafios e alcançá-los. Comecei inicialmente a falar sobre HIV e o problema da juvenização da Aids que enfrentamos no país. Acredito que por ser jovem e falar publicamente do vírus causador da Aids, comecei a ter mais visibilidade e a me apropriar de questões que perpassavam o HIV, como educação, saúde, direitos humanos, direitos sexuais e reprodutivos, entre outros temas.
Observatório: Quais atividades você coloca em prática na Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS, no Fórum Consultivo de Juventude do UNAIDS e na Rede Latinoamericana de Jovens Positivos?
Diego: Sou membro da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids desde o meu diagnóstico. No início, eu buscava ler e me apropriar dos temas mais relevantes que a Rede pautava, depois passei a participar ativamente e a entrar nesses debates e discussões. Com isso comecei a participar de congressos, conferências, encontros e seminários que discutiam a prevenção e o viver com HIV dentro do contexto da juventude. Como eu comecei a me empoderar de outros assuntos, também me envolvia em outras agendas como a de saúde sexual e reprodutiva e das vulnerabilidades que envolvem as populações chave no Brasil.
Em 2011, representei a RNAJVHA no Conselho Nacional de Juventude, órgão ligado à Secretaria Nacional de Juventude e à Secretaria-Geral da Presidência da República, que tem como foco debater, construir e aprovar políticas públicas para a juventude, além de propiciar debates e estratégias que garantam direitos para os jovens, como o Estatuto da juventude, do qual pude participar por meio das estratégias de comunicação nas redes sociais para aprovação do mesmo. Dentro do Conjuve também participei da REJ/Mercosul (Reunião Especializada de Juventude do Mercosul) dialogando com a juventude do bloco do Mercosul sobre vulnerabilidades, direitos e políticas públicas.
Na Rede Latino Americana de Jovens Positivos eu atuei inicialmente como membro e fiquei responsável por mobilizar a participação do Brasil nos grupos de diálogos que a Rede tinha em nível regional de forma a estimular e garantir mais participação da juventude do país nesses processos. Posteriormente, fui escolhido para ser coordenador sub-regional do cone sul da Rede Latinoamericana, depois do encontro de jovens positivos que tivemos na Guatemala. Após o encontro passei a dialogar com as lideranças juvenis dos países do cone sul com a finalidade de elaborar estratégias de fortalecimento à prevenção do HIV entre jovens e melhoria da qualidade do serviço público de saúde de atenção ao HIV/Aids nesses países.
No YAF (Youth Advisory Forum) eu participei como membro levando a conhecimento do Fórum as demandas da América Latina, os avanços e retrocessos da política de Aids no país e as necessidades de agendas que a região precisava no sentido de fortalecer o combate à epidemia de Aids entre jovens e construir canais de comunicação que reforcem a prevenção do HIV e outras DST’s na juventude.
Observatório: De que forma você entende que a sua participação na Conferência Mundial de Juventude vai colaborar com o trabalho que você já vem desenvolvendo?
Diego: A minha participação vai colaborar no sentido de pautar a temática do HIV na Conferência e de dialogar com jovens de outros lugares do mundo sobre prevenção, políticas públicas de saúde e tratamento do HIV nesses países. Esse encontro é um espaço muito forte de interlocução e diálogo, é um momento de buscar conhecer estratégias assertivas e inovadoras que outros países realizam e que, colocadas em prática ano Brasil, trarão respostas positivas no sentido de combater a juvenização da Aids e de estimular a prevenção nesse público.
Alguns membros do YAF e da Rede Latinoamericana também estarão na Conferência, então acredito que poderemos nos mobilizar e tratar questões importantes como saúde sexual e reprodutiva, combate a Aids e gênero com jovens de todo mundo, além de fortalecer a nossa comunicação e diálogo dando mais visibilidade ao protagonista juvenil e ao nosso trabalho como jovens líderes e ativistas.
Também quero poder reunir ideias e incorporá-las no nosso pais e estar em constante processo de diálogo com países onde questões como Aids entre jovens e saúde sexual e reprodutivas estão avançadas em termos de políticas públicas de saúde e educação sexual.
Observatório: Quais são as suas expectativas para o encontro?
Diego: Espero que sejam formulados planos de ação que garantam uma vida plenamente cidadã aos jovens, garantindo a eles emprego, acesso à educação de qualidade, à cultura e ao lazer, entre todos os outros direitos, fortalecendo o desenvolvimento sustentável dentro do contexto de igualdade social. Além disso, anseio que seja possível abordar em seu conteúdo programático a educação sexual, orientando e informando adolescentes e jovens sobre a prevenção do HIV/Aids, identidade de gênero e LGBT, direitos sexuais e reprodutivos, saúde sexual e reprodutiva e racismo, de maneira a minimizar estigmas e preconceitos que permeiam a juventude na descoberta da sexualidade.
Além disso tudo que falou ali em cima, Diego também tem as seguintes expectativas:
– Garantir que exista uma política de redução de danos de maneira a evitar que cada vez mais jovens se envolvam e se percam no mundo das drogas, do álcool e do tabaco. Acredito que seja necessário também criar métodos para compartilhar a informação acerca dos malefícios e dependência que as essas drogas e o álcool propiciam e construir estratégias de comunicação que forneçam suporte e conhecimento para os jovens em relação à vivência com essas substâncias.
– Construir planos de combate ao racismo e à violência contra a juventude negra, quilombolas e de matrizes africanas para garantir que os jovens negros tenham uma qualidade de vida digna, livre de perseguições e preconceito.
– Fortalecer a proteção da jovem mulher através de políticas de direitos humanos que deem visibilidade aos seus direitos, de maneira a propor leis punitivas mais rígidas que repreendam toda e qualquer agressão. Além disso, acredito que seja importante alinhar a equidade de gênero para leis e marcos regulatórios em todos os países.
– Elaborar recomendações de atenção à mãe adolescente no sentido de ter um acompanhamento mais sólido no caso de gravidez indesejada, sobretudo para a jovens vítimas de violência sexual ou de iniciação sexual precoce.
– Ampliar o acesso e a mobilidade de jovens portadores de necessidades especiais para que eles possam usufruir, principalmente, de locais destinados a inclusão social, lazer, cultura e educação.
– Debater ações que dialoguem com as necessidades da juventude indígena e da juventude no campo, haja vista suas especificidades.
– Garantir que jovens quem vivem com HIV, de transmissão vertical, horizontal ou parental, sejam devidamente vinculados aos serviços de saúde e que os profissionais desses serviços adotem uma linguagem adequada para se comunicar com esse público de maneira a garantir a devida assistência e a redução do número de mortes.
– Tratar de forma mais séria questões relacionadas à homofobia, de maneira a garantir que jovens LGBT deixem de sofrer com o preconceito e o estigma que permeiam sua orientação sexual e, sobretudo, que acabe com a violência e as mortes provenientes da intolerância social em relação a essa população.
– Garantir que todos os Objetivos do Milênio tenham um olhar sensível e especial para o cumprimento das metas no segmento da juventude.
– Manter a juventude como segmento prioritário nas discussões de âmbito global , sobretudo nas metas do milênio e nas agendas da ONU.
Observatório: Qual o seu diferencial em relação aos demais candidatos que você acredita ter guiado a decisão da comissão de seleção da Conferência?
Diego: Acredito que no Brasil temos jovens líderes com forte incidência política em questões chaves para a juventude e acho que foi uma tarefa difícil da Secretaria Nacional de Juventude, da Secretaria-Geral da Presidência da República, do Conselho Nacional de Juventude e da ONU Brasil ter que escolher somente dois jovens como delegados oficiais do Brasil entre tantos capacitados para estar na Conferência Mundial de Juventude.
Acho que o meu diferencial é o comprometimento em dar sequência aos trabalhos, visto que sempre em todos os eventos dos quais participei fazia, em tempo real ou no retorno para casa, relatórios, documentos, cartas e textos falando sobre os principais desdobramentos, ações e ideias debatidas nos espaços. Sempre compartilho tudo isso com a sociedade civil como um todo, através de listas de e-mail, fóruns e grupos.
Também sou um jovem criativo, busco ideias para solucionar problemas, sempre participei de agendas regionais e globais e busco sugar ao máximo todas as contribuições que posso trazer ao debate para implementar no Brasil. Além disso, acredito que conquistei credibilidade e respeito ao longo do tempo na militância e ativismo, por sempre fazer da minha participação a mais produtiva possível e discutir com outras lideranças juvenis o aprendizado que adquiri nesses espaços.
Tenho incidência política e conhecimento sobre pautas que envolvem a juventude e principalmente com os Objetivos do Milênio, dentro da senda de desenvolvimento pós-2015, com a qual trabalhei desde a conferência da ONU. Tanto no YAF quanto na Rede Latinoamericana de Jovens Positivos, a agenda pós-2015 é um tema amplamente debatido do qual eu sempre buscava participar e acompanhar de perto. Acho que esse conhecimento foi decisivo junto com os outros que citei para determinar que eu fosse um dos jovens escolhidos.
Observatório: Você deseja aplicar os conhecimentos adquiridos no curso de Relações Internacionais em sua atuação com a juventude ou pretende desvincular sua vida profissional dessa área?
Diego: Acredito que tudo se mistura um pouco. Dialogar com jovens de outros países tem muito a ver com o conhecimento teórico adquirido no curso de Relações Internacionais. É como se o fato de eu estar nessas conferências e eventos para a juventude me agregassem conhecimento prático em relação à vivência com a realidade de outros países do mundo.
Eu gostaria de trabalhar com políticas públicas para a juventude, talvez com comunicação voltada para esse público, numa estratégia de diálogo entre pares, possivelmente. Acho que não tem como desvincular o que aprendi na teoria com a vivência na prática porque a teoria perpassa a prática nesse sentido.
E eu estou muito, muito orgulhoso de estar na WCY 2014 representando também Minas Gerais e Juiz de Fora.
Observatório: Pensa rápido.
Seu filme favorito: Clube de Compras Dallas.
Sua sobremesa predileta: Petit Gateau.
O que você faz no seu tempo livre: Leitura e cinema são minha vida.